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por Vanessa Martins de Souza

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher celebra-se anualmente em 25 de novembro para denunciar a violência contra as mulheres no mundo todo e exigir políticas em todos os países para sua erradicação. A convocação foi iniciada pelo movimento feminista latinoamericano em 1981 para marcar a data em que foram assassinadas as irmãs Mirabal, na República Dominicana. Em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas em sua resolução 54/134 assumiu o 17 de dezembro como data para a jornada de reivindicação convidando governos, organizações internacionais e organizações não-governamentais a convocar atividades dirigidas a sensibilizar a opinião pública sobre o problema da violência contra a mulher.

Em se tratando de um tema tão complexo, que engloba causas multifatoriais, vale a pena refletir sobre um aspecto que pode estar entre uma das raízes da violência contra a mulher praticada pelo próprio parceiro afetivo. Não há dúvidas de que as condições socioeconômicas da mulher contribuem amplamente para o aumento dos casos, principalmente, naquelas situações em que ela depende financeiramente do parceiro. Naturalmente, uma mulher que conta com nenhuma ou poucas condições financeiras de manter-se sozinha torna-se uma verdadeira prisioneira em um relacionamento pautado em agressões, muitas vezes, sistemáticas.

Dependência emocional

Contudo, há muitos casos de mulheres independentes financeiramente, que também se sujeitam a manterem relacionamentos em que são agredidas verbal, psicologicamente ou até fisicamente. Por que essa situação persiste no mundo contemporâneo ocidental, onde as mulheres a cada dia mais demonstram que são capazes de serem bem sucedidas na vida profissional e autossuficientes financeiramente? A resposta está na dependência emocional que elas desenvolvem por seus parceiros, por mais nocivos que eles sejam a elas e por mais insatisfatórios que sejam tais relacionamentos. Somente quem compreende a dinâmica dos relacionamentos abusivos, considerados “tóxicos”, pode captar a profundidade da questão, pois, aparentemente, não haveria lógica em permanecer em um relacionamento ruim ou péssimo havendo condições de um rompimento.

Comportamentos viciantes

Mas, quando se trata de dependência emocional, as coisas não são, assim, simples. Há toda uma dinâmica psíquica envolvida entre o casal, em que o agressor também apresenta uma dependência da mulher, estabelecendo-se uma relação simbiótica. Quebrar este ciclo repetitivo de abusos é tarefa árdua, semelhante ao combate a outros comportamentos de dependência, como de vícios por entorpecentes, comida, compras, etc. Sim, a dependência por um parceiro abusivo é uma espécie de vício. Vício emocional. O acompanhamento psicológico, feito por profissionais, é absolutamente fundamental a essas mulheres. E também ao agressor. Pois, o agressor irá procurar outra vítima que se encaixe a seus padrões de comportamento em eventual rompimento da relação.

Educação machista

Acredito que um dos fatores que levam tantas mulheres a aceitarem relacionamentos abusivos esteja na educação recebida pelas meninas. Há causas culturais importantes que não devem ser menosprezadas quando uma abordagem preventiva a longo prazo se faz necessária. Meninas costumam ser educadas, ainda, “para casar”. É inegável que esse tipo de mensagem continua sendo transmitida pela maioria dos pais, familiares e a sociedade. Ora, se as meninas crescem ouvindo e percebendo que mulheres devem casar, que precisam ter um par romântico para serem mulheres plenas, completas, realizadas e felizes, é lógico que a todo custo irão buscar e manter relacionamentos afetivos. O problema é que a qualidade desses relacionamentos será negligenciada quando os valores socioculturais determinam que o mais importante é casar e manter esse casamento, “não estar sozinha”. Mesmo as mulheres que não sentem tanta vontade de casar, assim, não deixam de colocar um relacionamento afetivo como prioridade em suas vidas, seja a partir de um namorado, ficante, crush ou qualquer coisa que o valha. O grau de importância concedida a um relacionamento afetivo com um homem faz com que ela o coloque no topo da sua lista de prioridades. Quantas são as mulheres que se sentem tristes, carentes, solitárias, sem autoestima, feias e fracassadas por não contarem com um par? Muitas, tenhamos certeza.

Romantismo e fuga da solidão

Chega a ser assustador perceber que, a despeito de todas as mudanças na sociedade em benefício da emancipação feminina, ainda haja tantas mulheres, desesperadas, até, para casar ou arranjar um namorado, ou um crush, que seja… Ao menos, um ‘contatinho’ nas redes sociais. Por falar em internet, o número de coachs de relacionamentos atuantes no mundo digital, ensinando as mulheres a seduzir e conquistar homens, é fenomenal. Devem ganhar muito dinheiro esses profissionais, pois costumam bombar em likes e visualizações… Eis, mais uma prova da importância que o gênero feminino ainda concede a obter e manter um relacionamento romântico. Toda essa hipervalorização de um relacionamento contribui para que se estabeleça uma relação de dependência emocional do parceiro. Daí para se sujeitar a qualquer tipo de situação só para obter e manter um homem pode ser um pulo quando não há autoestima suficiente e um histórico de problemas psicológicos que necessitam de atenção profissional, a exemplo de depressão, inseguranças e até problemas psiquiátricos mais graves.

Mudanças culturais em curso

Vale a pena apostar que, quando as mulheres deixarem de ser educadas para casar e ter filhos, acima de tudo; quando pararem de ser pressionadas por amigos e familiares para arranjarem um namorado; quando as que não casaram deixarem de ser rotuladas de “solteironas”; quando a autoestima delas deixar de ser balizada pelo que pensam os homens a respeito de sua beleza e aparência, e assim por diante, estaremos realmente prevenindo a violência contra a mulher em suas causas mais profundas. Recentemente, soube de uma menina de quatro anos que, para sua festa de aniversário, escolheu a temática da ‘Batgirl’, ao invés de temáticas tipicamente femininas de Cinderela e príncipe,Frozen, fadas e sereias. Nada contra essas temáticas tradicionais, mas é interessante perceber que o modo como algumas meninas são educadas pode influenciá-las de uma forma a buscarem mais força e independência, ao invés de estimulá-las a supervalorizar personagens e histórias românticas de “príncipe encantado”. Pois, ninguém nunca conta a elas que príncipes costumam viram “sapo” com o passar do tempo. E, às vezes, até monstros e lobos-maus.

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