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por Luiz Carlos Silveira Monteiro

A discussão sobre mudanças previdenciárias abre um importante debate necessário sobre o futuro do Brasil. A perspectiva do aumento da longevidade da população requer enfrentar grandes desafios. Se hoje os brasileiros com 65 anos de idade ou mais representam aproximadamente 8% da população, em 2030 a expectativa é de grandes mudanças na pirâmide etária do país, com 14% das pessoas nessa fase da vida.

A gestão da saúde populacional precisa se preparar para essas novas demandas. Aos poucos, os pacientes deixarão de ser diagnosticados com doenças típicas de economias em desenvolvimento – como as enfermidades infecto-parasitárias – e enfrentarão as chamadas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) – como diabetes, hipertensão arterial, artrite e problemas cardíacos, entre outras.

O enfrentamento dessa nova realidade exige um novo olhar para a saúde tanto do setor público como também do privado. Nessa área, o diagnóstico da população adulta, com a separação em grupos de risco, é essencial para garantir resultados, que impactam na melhoria da qualidade de vida da população, contribuindo para a redução de custos a longo prazo e ajudando a melhorar os indicadores de saúde. Por isso, a gestão passa a construir um modelo integrado, atendendo às diversas demandas.

As DCNTs e as neoplasias constituem o conhecido “Pareto da Saúde” – são 20% em número, mas são responsáveis por 80% dos gastos em saúde. E ainda, esses indivíduos irão gastar somente no último ano de vida mais da metade dos recursos em saúde que consumiram durante toda a existência. Identificar essas pessoas e oferecer o adequado tratamento desde o diagnóstico vai permitir a esse público alcançar padrões semelhantes daqueles que têm menor risco. Isso vai impactar na melhora dos investimentos com internações, medicamentos, exames, entre outras despesas. O diabetes, por exemplo, atinge mais de 12 milhões de brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo (SBEM). Nos EUA, os custos para o tratamento dessa doença já ultrapassam a soma de US$ 200 bilhões anuais.

O trabalho deve prosseguir identificando pessoas com tendências futuras para as DCNTs como os pacientes obesos, sedentários, tabagistas, usuários de álcool, entre outros. A implantação de programas com orientações de atividades física, nutrição, entre outras medidas, contribui para que essa parcela da população não passe para o grupo de alto risco, aumentando as necessidades de cuidados específicos. As medidas preventivas são essenciais para reverter essa tendência e devem estar no horizonte dos gestores de saúde.

Mesmo no grupo de pessoas saudáveis, o acompanhamento por profissionais contribuiu para a prevenção de eventuais doenças e melhorias na saúde. Essa população pode precisar de programas de nutrição e atividades físicas, por exemplo, como forma de manter padrões saudáveis de vida. Esse conceito resume a Gestão de Saúde Populacional, tendência de gestão da área que conecta diversas ações em saúde a um banco de dados relacional, o qual permite estratificar a população em diferentes grupos de risco e orientar programas voltados as especificidades de cada grupo.

A força das ferramentas digitais, facilitando o acesso dos indivíduos aos conceitos de autocuidados em saúde e, ao mesmo tempo, facilitando sua conexão às bases de dados, tendem a acelerar como nunca esses conceitos. Sob essa óptica, os medicamentos exercem papel fulcral. A evolução desses produtos é responsável, sem dúvida, por grande percentual na sobrevida que hoje alcançamos. Desde os antibióticos até os mais recentes medicamentos biológicos, mais e mais doenças passaram a ser curáveis ou ainda controláveis em estágios iniciais.

Os investimentos em saúde podem ainda apresentar um custo maior na sua implantação, com necessidade de exames diagnósticos, consultas especializadas, entre outras. Mas o capital investido pode ser diluído ao longo dos anos e mostrar resultados positivos, como a redução de internações e uso de recursos de alto custo.

Não estamos aqui falando em novos investimentos, mas sim de gestão e interação de programas e recursos já implantados no campo do acesso, mas totalmente desconexos em relação a gestão. O Programa Farmácia Popular, por exemplo, está presente de Norte a Sul do País. Acertadamente, o governo, por meio do programa, promove acesso a medicamentos voltados às DCNTs – particularmente diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia – e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). O programa, baseado no conceito de PBM (Programa de Benefício de Medicamentos), é totalmente eletrônico e pode permitir ferramenta de gestão poderosa. No entanto, a gestão dos acessos – como dados de adesão, escape de tratamento e integração a outras bases de dados assistenciais – ainda precisa ser constituída.

Com recursos cada vez mais restritos, a gestão em saúde é essencial para o futuro dos brasileiros. Por urgente, o conceito precisa permear a agenda estratégica dos principais “pagadores” de saúde do País: o governo e o setor privado.

Luiz Carlos Silveira Monteiro
Presidente da PBMA (Associação Brasileira das Empresas Operadoras de PBM) e da ePharma

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