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por Noelcir Bello

Alziro Lopes nasceu em Castro e desde cedo trabalhou na roça. Sua vida era bem sofrida naquela época, roçava com a foice e, depois, queimava a roçada para preparar o terreno para a plantação.

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Ainda pequeno, com seis anos de idade, perdeu um olho quando foi mexer com o cigarro de palha escondido de seus pais e uma brasa o atingiu. Alziro nos contou que ele era o responsável por acender o fogo e sempre aproveitava para fumar escondido. Teve seis irmãos.

Nosso entrevistado lembra que, e aos 28 anos, ia até Arapongas de trem para poder trabalhar. Levava até três dias para chegar. Trabalhava derrubando mato em toda região, utilizando apenas o machado, e ganhava 800 “merréis” por alqueire derrubado.

Após seu último trabalho, quando derrubou 58,5 alqueires de mato, passou a colher café. Mudou para uma fazenda, onde ficou por três anos ganhando 1 “merréis” por pé. Trocou para outra fazenda e já ganhava um pouco mais colhendo café. Pagava 40% ao dono da fazenda. Nesta fazenda tinha outra vantagem: o milho, feijão e outras plantações eram apenas do Seu Alziro.

Produção transportada por cargueiros

Seu Alziro nos disse que no passado puxavam a colheita com os cargueiros. Os freteiros da época eram as pessoas que tinham quatro cargueiros com os cavalos e puxavam a carga, que só podia ser transportado em dias de sol.

Carro quase não existia, poucos tinham condições financeiras e sabiam dirigir. Os poucos caminhões da época não tinham acesso às plantações, pois as estradas eram trilhos de passagem para os cavalos.

De Castro até sua casa eram cerca de 30 Km, e para visitar os tios andava 50 Km de cavalo. Saía cedo de casa e chegava ao cair da tarde. No caminho só parava para dar água para o cavalo, em uma de suas duas propriedades que ficavam no percurso.

Seu tio transportava telhas nos cargueiros por uns 45 Km. Eram doze mulas que faziam barulho durante todo o trajeto, já que elas usavam o guizo.

Derrubar árvores era necessário

Tinham 400 mil pés de café e a derrubada de árvore era necessária para fazer as plantações. “Uma vez, demoramos cerca de 5 horas para derrubar uma Peroba. Eram quatro homens cortando com machado. Porém, essas madeiras não tinham valor. Só havia uma marca de machado, a Colin, que era capaz de suportar a pressão. Até hoje tenho um desses”, disse Seu Alziro.

Sua família transportava alimentos até Curitiba

Matavam os porcos lá no interior de Castro e faziam o toucinho para transportar até Curitiba. A viagem levava cerca de cinco dias só para chegar e vendiam a 7 “merréis” a arroba, entregavam no Centro Cívico, na região do Palácio Iguaçu.

Para vender os porcos gordos, com até oito arrobas, os transportavam por 45 Km. A viagem durava uma semana toda até chegar à Castro, pois os porcos iam caminhando e quando o sol esquentava eles paravam e armavam barracas. Às vezes, ao acordar, estavam cobertos de geada. Na última vez que levou os porcos, retornou a pé às 11 horas da manhã de Castro e chegou à Socavão às 6 horas da tarde, pois não tinha transporte algum.

Chegada à Pinhais

Seu Alziro disse que foi visitar parentes em Curitiba e encontrou um terreno à venda na região de Pinhais, onde hoje é o Weissópolis. Segundo ele, era um banhado. Quando comprou a propriedade, havia uma casa de Pinheiro de primeira qualidade. Pagou 3700 Réis e só depois de um ano foi morar na sua casa, em 1969.

No Weissópolis já havia algumas ruas e a Avenida Iraí era composta por duas pistas, mas tinha o carreirinho onde o trenzinho passava com o barro, que transportava o material para a olaria da família Scarpa.

Começou a trabalhar para uma firma de construção. Ajudou a construir 55 prédios em Curitiba e região. O salário era de 120 “merréis” por mês, era a empresa que pagava o melhor salário, e quando se aposentou, em 1991, recebia 600 Cruzeiros por mês.

Na mudança, trouxe uma vaquinha, bois, um burrinho, uma bezerra, milho, 25 sacos de arroz, três sacos de café limpo, dois sacos de açúcar e dois sacos de sal. Sua mudança deu trabalho para descarregar. Os móveis foram até tranquilo, mas o caminhão com 60 sacos de milho pesou e acabou afundando na lama, e ali estavam os bois, a vaca e um burrinho. Pagou 600 “merréis” de frete para os dois caminhões transportarem seus pertences.

Deixava a vaquinha solta e como a pastagem era boa, em oito anos já tinha 16 cabeças de gado. Tinha também sete porcas criadeiras. “O milho usado para tratar os animais custava o equivalente a 1 real o saco. Eu vendia a carne dos bois e porcos para os colegas de firma, pois eram cerca de 200 funcionários”, lembrou.

Muita disposição

Aos 92 anos está forte, muito ativo, planta milho e feijão em seu enorme quintal. Cuida do pequeno galinheiro, carpe o terreno, faz roçada quando precisa, mas conta com a parceria das galinhas para manter o quintal sem mato.

Quando colhe, preserva os grãos nas garrafas pets, ele afirma que ali elas duram por anos. Muito paciente para fazer suas tarefas, credita sua saúde a todas estas atividades, a única coisa que consegue abater seu Alziro é a gripe, e ainda só de vez em quando.

Usa fogão à lenha para cozinhar o feijão, aquecer a água do chimarrão. Água pura quase não bebe, come de tudo, muita cebola, alho, bastante queijo caseiro e não come enlatados, salgadinhos, cachorro quente, não bebe refrigerante e nem bebidas alcoólicas. Quando jovem bebia vinho caseiro todos os dias, pois comprava o barril de cem litros do vizinho.

Costuma fazer caminhada e se orgulha em dizer que anda 3,5 Km em 45 minutos. Ainda faz passeios para visitar seu irmão mais velho, no Norte do Paraná, e também, de vez em quando, vai para Curitiba sozinho de ônibus, só para passear ou até mesmo comprar alguma roupa. “Ainda dou conta de empurrar um carrinho de mão com três sacos de cimento”, finalizou sorrindo.

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